Relatos de Experiências

A pesquisa cultural “O duplo da atriz - máscaras e a questão de gênero como processo criativo e procedimento pedagógico na construção de imaginários insurgentes" investigou o processo criativo em máscaras junto a Cia Biruta /Núcleo Biruta de Teatro. O objetivo foi elaborar procedimentos pedagógicos para construção desses imaginários sobre representações de gênero e, a partir da perspectiva da educação contextualizada com o semiárido, analisar formas de representação, performatividades e teatralidades contemporâneas realizadas no teatro de grupo.

Foram seis meses de pesquisa com encontros semanais com cerca de 26 participantes do Núcleo Biruta de Teatro, espaço de formação criado e coordenado pela Cia Biruta, grupo de teatro do qual as atrizes-pesquisadoras deste projeto fazem parte: eu, Cristiane Crispim, Camila Rodrigues e Leticia Rodrigues. Nesses encontros, além de leituras de textos como “A máscara”¹, de Grada Kilomba e “Amar novamente: o coração do feminismo”² de bell hooks Experimentamos processos criativos de maneira compartilhada na elaboração de máscaras e performance, levando em consideração o agenciamento de afetos vividos pelos corpos das participantes no território. Território este demarcado, primeiramente, pelo corpo e como ele se sente em relação ao lugar que ocupa no mundo.

As subjetividades eram materiais para se estabelecer relações histórico-culturais geolocalizadas. As participantes criaram mitos fundadores a partir dos textos lidos, relacionaram esses textos com memórias pessoais e, aos poucos, desenvolveram a visualidade de suas máscaras, iniciando com colagens até o projeto em desenho de suas máscaras. Ao final, foi feita a confecção, tendo à disposição sementes e folhagens da caatinga, pois se compreende que a natureza e o universo mítico se integram.

Entrementes, tivemos o intercâmbio com Cida Almeida e a sua metodologia da Ostheografia, com as máscaras da infância e as máscaras ancestrais. Foram dois dias de encontro em que ela apresentou princípios de uso das máscaras larvária e ancestral, entre uma e outra, a máscara da infância com improvisações na confecção e criação de cenas. Cida, mediou com muita sensibilidade o processo de assimilação da turma da dimensão do sagrado contida na máscara.

As máscaras continham em si o indivíduo e o coletivo de um processo integrado, narrativas pessoais, ganhavam corpo e enunciação que dialogava com questões sociais de uma vida em comunidade. Um pai ausente, uma mãe em busca de liberdade, um menino que buscava sua identidade, um mulher que se rebela e resiste diante da violência, um mulher que transmuta em onça e nos lembra da necessidade de escuta de uma natureza da qual somos formadas. Formas fixas, as máscaras comunicam diretamente arquétipos de imagens que eram, em si, insurgentes, deixando-se revelar em um ambiente social, o grupo, sem medo do julgamento, com aval para insurgir-se aos estereótipos de gênero apreendidos durante toda uma vida.

Da máscara-persona/personagem, para a máscara-objeto e, finalmente, para as performances e cenas: o rito onde os mitos e as máscaras se justificam e tornam-se de todos. A pesquisa constatou que a máscara concretiza o abstrato e manifesta desejos comuns, comunitários. As mulheres e homens que confeccionaram a máscara, pensaram sua forma para depois utilizá-la. De sujeitas de uma experiência individual, tornaram-se símbolos daquela experiência comum, representações de “espíritos” que levaram à consciência de si e do território. Realizamos uma performance na rua, uma apresentação com o resultado de cenas em dupla, com narrativas transversalizadas. Ao final, uma roda de conversa comigo, Dione Carlos e Carla Paiva, em que o tema da pesquisa se abre para diálogo com outras pesquisas e outras poéticas.

As práticas pedagógicas articularam o sentido de comunidade em que máscara harmoniza o grupo, criando estéticas e éticas comuns, com as histórias apresentadas para gerar autorrepresentações insurgentes, que contestem as práticas patriarcais historicamente colonizadoras, discriminatórias que se expressam em violência física e simbólica contra as mulheres. As máscaras revelaram violências, mas também desejos de justiça (e vingança). Experiências de desamor, mas também caminhos para o amor-próprio. Revelaram, sobretudo, força, da comunicação com ancestrais, a força para transmutação de destinos.

A pesquisa nos revelou o poder da máscara em seu sentido comunitário, como elemento de mediação e conexão. Estéticas que se forjam a partir da necessidade e dos materiais disponíveis: a impossibilidade como linguagem, de onde se busca soluções criativas. Todo o processo da pesquisa que retoma práticas ancestrais de encontro, de criação, de relação com a natureza e de elaboração de pensamento crítico por si só é insurgente, pois contraria lógicas produtivistas do tempo linear capitalista e refaz alianças com a ancestralidade e suas práticas circulares de produção. Aqui, na página deste site, apresentamos imagens do processo, dos textos, dos materiais e das máscaras criadas. São resultados de uma pesquisa que segue provocando “redemoinhos criativos” no grupo, reorientando as práticas tanto artísticas quanto pedagógicas do nosso fazer teatral.

Máscara como mediação insurgente de pertencimento e cura

por Cristiane Crispim

Relatos de Experiências

Os textos reunidos nesta seção registram diferentes olhares sobre o processo vivido na pesquisa O Duplo da Atriz – Máscaras e a questão de gênero como processo criativo e procedimento pedagógico na construção de imaginários insurgentes.

Memorial Criativo

As colagens reunidas nesta seção foram produzidas por participantes do Núcleo Biruta de Teatro durante o processo de pesquisa O Duplo da Atriz.

As máscaras apresentadas nesta seção foram desenvolvidas no âmbito da pesquisa O Duplo da Atriz, realizada pela Cia Biruta de Teatro junto ao Núcleo Biruta de Teatro, sob orientação de Cristiane Crispim.

Máscaras e Mitos

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