Participar da pesquisa O duplo da atriz - máscaras e a questão de gênero como processo criativo e procedimento pedagógico na construção de imaginários insurgentes, promovida pela Cia Biruta de Teatro e orientada por Cristiane Crispim, foi uma experiência de investigação artística que atravessou corpo, pensamento, memória, território e criação.
Escrevo este relato como atriz da Cia Biruta e também como coordenadora do Núcleo Biruta de Teatro (NBT), espaço onde a pesquisa foi desenvolvida. Estar nesse processo significou ocupar, ao mesmo tempo, os lugares de participante, observadora e alguém que acompanha de perto os caminhos formativos que o grupo vem construindo ao longo dos anos.
A pesquisa teve como ponto de partida leituras e discussões sobre gênero, feminismo, identidade e silenciamento. Entre os textos estudados estavam trechos de O feminismo é para todo mundo, de bell hooks, e A Máscara, de Grada Kilomba. As leituras ultrapassaram o campo teórico. Elas atravessaram nossos corpos e serviram como matéria para criação.
A leitura de A Máscara, de Grada Kilomba, me marcou profundamente. A metáfora da máscara como instrumento de silenciamento me fez refletir sobre quantas vezes somos levadas a vestir versões de nós mesmas para caber em expectativas externas. A partir dessa leitura, fui convidada a produzir uma escrita poética que dialogasse com as reflexões provocadas pelo texto. Dessa provocação nasceu o poema As Máscaras que não queremos vestir:
As Máscaras que não queremos vestir
Há máscaras que não encenam, aprisionam.
Não são escolhas, são imposição.
São pele falsa, calada, moldada por olhares que nos recusam a fala.
Grada Kilomba nos sussurra, ou talvez grite,
que vestir uma máscara pode ser um gesto de violência.
Ela cobre, silencia, distorce.
É a tentativa de tornar palatável o que não se quer escutar.
É o disfarce que não liberta, mas sufoca.
Impostas desde fora, essas máscaras nos dizem:
"Seja o que esperamos.
Não nos confronte com sua verdade."
Mas há um instante em que recusamos.
Não por orgulho, mas por sobrevivência.
Rasgamos o véu, cuspimos o disfarce,
e com a voz desnuda, dizemos:
não vestiremos o silêncio.
Ao escrever esse poema, compreendi que algumas máscaras não protegem nem transformam; elas escondem, limitam e tentam apagar vozes. O exercício me permitiu refletir sobre opressões históricas e coletivas, assim como sobre os silêncios que carregamos individualmente.
Já a leitura de O feminismo é para todo mundo, de bell hooks, nos conduziu à criação de um mito. A proposta era imaginar uma figura simbólica capaz de dialogar com os princípios de resistência, liberdade e transformação presentes no texto. Foi assim que nasceu o meu mito intitulado “A Juremeira – Protetora das Mulheres da Caatinga”. O mito apresenta uma figura mítica que habita a Caatinga e dedica sua existência à proteção das mulheres. Guardiã das rezas fortes e dos saberes ancestrais, ela enfrenta os homens que tentam violentar e subjugar seus corpos, utilizando sua voz e seus encantamentos como instrumentos de justiça. Sua presença simboliza a resistência, o cuidado e a força das mulheres sertanejas.
A criação de Juremeira me fez perceber como os conceitos discutidos por bell hooks podiam ser traduzidos em imagens, símbolos e narrativas. Ao construir esse mito, encontrei referências nas mulheres do sertão, em suas estratégias de sobrevivência, em suas formas de cuidado e em suas resistências cotidianas. Aos poucos, Juremeira deixou de ser uma personagem criada para um exercício e passou a orientar minhas escolhas poéticas, corporais e visuais durante todo o processo.
A partir do poema e do mito, novas proposições surgiram. Escolhemos palavras dos textos para transformá-las em ações físicas. Selecionamos músicas que dialogavam com nossas criações. Escrevemos memórias reais ou imaginadas. Experimentamos gestos, ritmos, deslocamentos e estados corporais. Aos poucos, cada elemento foi se conectando ao outro, formando pequenas partituras cênicas e performances.
O que mais me interessou nesse processo foi perceber como uma ideia podia se transformar em movimento. Como uma palavra podia ganhar peso, direção, velocidade ou pausa. Como uma memória podia habitar o corpo de diferentes formas. Esses exercícios ampliaram meu olhar sobre criação cênica e abriram possibilidades para pensar dramaturgia, presença e composição de maneira mais intuitiva e sensível.
Paralelamente, realizamos os exercícios corporais desenvolvidos pela Cia Biruta a partir da pesquisa Cenas Ribeirinhas, práticas que buscam fortalecer a relação entre corpo e território. Foram exercícios que nos convidavam a observar, escutar e responder ao ambiente, reconhecendo a paisagem como parceira do processo criativo.
Outro momento importante foi a construção das máscaras. Recebemos diversos materiais e cada participante pôde escolher aqueles que melhor dialogavam com seu mito. A confecção revelou-se um processo de descoberta que ultrapassava a dimensão manual da atividade. Cada camada, textura, cor ou objeto incorporado à máscara parecia revelar algo sobre aquela figura que estava sendo criada. Ao final, tínhamos diante de nós objetos cênicos que funcionavam como extensões de nossas próprias pesquisas.
O percurso culminou em uma vivência na Ilha do Massangano. Caminhamos pela caatinga às margens do rio, observando o ambiente e nos permitindo sentir tudo o que ele nos oferecia. Foi uma experiência profundamente sensorial. O vento, os sons dos animais, a textura da vegetação, o calor do sol, a sombra das árvores e a presença da água compunham uma espécie de dramaturgia viva.
Em determinado momento, vestimos as máscaras que havíamos criado e seguimos pela paisagem. A partir dali, a experiência assumiu um caráter quase ritualístico. Não havia uma forma correta de agir. Podíamos caminhar, correr, cantar, dançar, meditar, nos esconder entre os galhos ou simplesmente permanecer em silêncio.
No início senti medo. Medo de cair, de não enxergar direito, de não conseguir me conectar com a proposta. Medo de quebrar a máscara, de me machucar ou de atravessar a experiência sem encontrar nada. Aos poucos, fui me permitindo habitar aquele estado.
Minha visão estava limitada pela máscara, mas minha escuta parecia mais aberta do que nunca. Passei a ouvir o estalo dos galhos, o movimento das folhas, o som distante dos animais, o motor da barca, os ruídos produzidos pelos meus próprios passos. Tudo parecia ganhar outra dimensão.
Também percebi que meu corpo se transformava. Eu, que sempre me reconheci pequena, experimentava agora a presença de um mito gigante. Meu deslocamento mudou. Antes de avançar, eu precisava observar. Precisava avaliar o caminho, criar estratégias, abrir passagem ou encontrar desvios. E foi nesse movimento que compreendi algo importante: eu não voltava atrás. Seguia. Às vezes mais devagar, às vezes contornando obstáculos, mas seguia.
Ao tocar as árvores, sentia como se elas guardassem histórias. A sombra me acolhia como abrigo. O sol me desafiava. Havia momentos de desconforto e exaustão, mas também momentos de encantamento. Aos poucos, fui entendendo que a pausa era tão importante quanto o movimento.
Durante o percurso encontrei jatobás, paus-ferro, algarobas, mandacarus, facheiros e tantas outras presenças da caatinga. E quando finalmente alcancei a vista do rio, senti como se o caminho também respirasse. A paisagem se abria diante de mim e, junto dela, algo dentro de mim também se abria.
Essa experiência me fez refletir sobre a potência da criação artística quando ela nasce do encontro entre teoria, prática, imaginação e território. Os textos de bell hooks e Grada Kilomba não ficaram restritos às páginas. Tornaram-se imagens, gestos, personagens, máscaras, percursos e experiências vividas.
Ao final do processo, compreendi que o duplo da atriz talvez seja mais do que uma personagem ou uma máscara. Talvez seja esse espaço de atravessamento onde diferentes vozes, memórias, corpos e imaginários coexistem. Um lugar onde podemos experimentar outras formas de existir, criar e imaginar o mundo.
Saio dessa pesquisa com a sensação de ter ampliado minha escuta, meu repertório criativo e minha relação com o território que habito. E, sobretudo, com a certeza de que criar é um ato de resistência, de presença e de encantamento.
Corpo, máscara e território: relato sobre um processo de pesquisa e criação
por Camila Rodrigues

© 2026. Todos os direitos reservados.
Cia Biruta de Teatro
Associação Cultural Cia Biruta de Teatro
CNPJ: 10.567.286/0001-45


