A máscara nunca foi, para mim, apenas um objeto. Ela é uma presença.
Antes mesmo de ser vestida, ela já começa a revelar algo que muitas vezes ainda não consigo nomear. Quando comecei a construí-la, não parti de uma imagem completamente definida. Existem intenções, referências, materiais e afetos, mas ela vai surgindo durante o próprio fazer. Aos poucos, parece revelar algo que estava guardado em um lugar anterior à racionalidade. Talvez por isso cada máscara carregue uma personalidade própria.
Percebo que somos recipientes da máscara. Ela nos atravessa antes mesmo de ser concluída. Quando finalmente a vestimos, ela exige mais do nosso corpo. Não basta colocar a máscara sobre o rosto. O corpo inteiro precisa responder ao que ela pede. O caminhar muda. A respiração muda. O tempo muda. O olhar muda. Existe um corpo mais verdadeiro que ela procura revelar.
A máscara impõe sempre algo maior do que imaginávamos oferecer. É como se dissesse que não basta representar, é preciso tornar-se presença.
Durante essa vivência fomos convidadas a olhar para a Caatinga de outro modo. Apesar de vivermos nesse bioma, pouco conhecemos sobre seus modos de existir. Aprendemos, junto ao CEMA FAUNA (UNIVASF), sobre as sementes aladas, capazes de viajar com o vento, mas que só germinam quando encontram as condições necessárias. Muitas delas permanecem em dormência durante longos períodos, aguardando o momento certo para florescer. Essa imagem permaneceu comigo.
Percebi que também atravessamos nossos próprios tempos de dormência. Nem sempre florescemos porque ainda não encontramos o ambiente, a maturidade ou a escuta necessária para isso. A ancestralidade talvez também funcione assim, permanece viva, silenciosa, esperando o momento em que estamos preparados para reconhecê-la.
A própria Caatinga parece vestir uma máscara. Vista de longe, pode parecer hostil ou vazia. Mas basta permanecer nela um pouco mais para perceber que tudo pulsa. Há sementes escondidas, flores esperando a chuva, pássaros invisíveis, cores que aparecem apenas para quem aprende a olhar. Ela também guarda seus mistérios até que alguém esteja disposto a escutá-los.
Minha máscara nasceu desse encontro.
Foi construída com sisal, cordas, sementes e materiais da própria Caatinga. Inicialmente tentei desenhá-la de maneira racional, mas logo compreendi que ela não obedeceria ao meu planejamento. Ela foi se construindo a partir do diálogo entre os materiais e aquilo que eles despertavam em mim. Quando ficou pronta, reconheci nela uma presença ancestral, quase como uma entidade.
Já não era apenas eu caminhando. Minha visão ficou reduzida. Minha atenção precisou aumentar. Passei a escutar mais do que olhar. Entrei entre as favelas sem perceber o risco dos espinhos. Permaneci observando pássaros, esperando seus movimentos, deixando que o silêncio ocupasse espaço dentro de mim.
Naquele momento compreendi que a máscara também educa os sentidos. Ela amplia a percepção. Ela nos obriga a abandonar o controle e confiar na intuição. Não é apenas o mundo que se transforma. Nós também nos transformamos para conseguir habitá-lo.
Na segunda experiência, essa presença encontrou o público. Levei comigo um tambor e um pequeno frasco de alfazema. Se a primeira máscara me ensinou a escutar a Caatinga, a segunda me ensinou a escutar as pessoas.
A máscara possuía uma aparência imponente. Cobria completamente meu rosto. As crianças, inicialmente, sentiam medo. Mas bastava que eu me aproximasse lentamente, inclinasse o corpo e passasse a alfazema sobre suas mãos para que algo mudasse. A imponência dava lugar ao cuidado.
Percebi então que a máscara produz sentidos que já não pertencem apenas a sua criadora. Cada pessoa encontra nela uma experiência diferente. O espectador completa aquilo que a máscara inicia.
O cheiro da alfazema tornou-se parte da própria máscara. Não era um acessório. Era sua memória olfativa. Um anúncio silencioso. Um gesto de cuidado dirigido principalmente às crianças e às pessoas idosas, como se elas ocupassem as extremidades do tempo, onde a ancestralidade permanece mais visível.
Nesse momento compreendi algo que permaneceu comigo desde então, não somos nós que usamos a máscara. É a máscara que utiliza nosso corpo para existir.
Ela acessa memórias que talvez nosso rosto sozinho não conseguiria revelar. Ela convoca um conhecimento que passa pela intuição, pelo silêncio e pela ancestralidade.
Assim como as sementes da Caatinga aguardam o tempo certo para germinar, talvez nossas máscaras também esperem o momento adequado para nascer. Cada nova máscara revela apenas uma parte desse processo. Nenhuma encerra completamente o que somos.
Talvez criar máscaras seja justamente isso, permitir que aquilo que permaneceu em dormência encontre, finalmente, um corpo para florescer.
Revelar-se pela Máscara
por Leticia Rodrigues

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