Máscaras e Mitos

Veio de longe, sozinha, com um caldeirão, uma varinha feita de galho de salgueiro e um livro de "feitiçaria". Não se sabe de onde veio nem por que escolheu aquela vila. Mas veio.

Era diferente.

Não ria alto, não gostava de ser tocada, evitava multidões. Usava vestidos longos e chapéu pontudo, mas nada nela parecia forçado. Caminhava como se os pés já conhecessem o lugar. Tinha olhos atentos e calmos, e um jeito que fazia as pessoas se sentirem observadas.

Seraphina tinha hábitos que o povo não compreendia. Passava horas lendo, sem perceber o tempo passar. Nunca escrevia com as próprias mãos. Havia quem dissesse que não suportava o toque do papel e que, ao abrir um livro, sentia calafrios. Mas o livro preto dela se preenchia mesmo assim, com letras miúdas e bem desenhadas.

Ninguém sabia quem escrevia por ela. Alguns diziam que era magia. Outros, que era o próprio livro que entendia o que ela pensava.

Nos dias frios, ninguém a via. Ela sumia. Fechava-se em casa, onde o vento não alcançava. A vila aprendeu a associar o calor ao seu retorno.

Seraphina falava pouco e nunca ia à igreja. Não abaixava a cabeça nem para patrão. Isso bastou para que a chamassem de bruxa.

De dia, era uma figura solitária. Mas, à noite, sua casa ganhava luz. Ela ajudava em partos difíceis, aliviava dores, curava febres, escutava desabafos. Nunca cobrava. Só ouvia. E ensinava.

As mulheres começaram a visitá-la em segredo. Entravam caladas, com medo. Saíam com algo nos olhos que antes não tinham: firmeza. Aprendiam o nome das ervas, os ciclos do corpo, como cuidar de si. Mas, mais do que isso, aprendiam a pensar com liberdade.

Seraphina falava de coisas que ninguém mais ousava ensinar.

Diziam que ela encantava as mulheres, que sua voz virava feitiço, que suas ideias eram perigosas.

E o medo, como sempre, virou sentença.

As visitas noturnas chamaram atenção. As meninas que antes olhavam para o chão agora falavam com coragem.

Isso incomodou.

Não houve julgamento.

Nem defesa.

Num dia cinzento, vieram buscá-la.

Mas não viram Seraphina morrer.

Quando acenderam o fogo, ela não gritou. Seus cabelos flutuaram. Seu corpo virou poeira escura e brilhante. Desfez-se como se voltasse à terra, ao ar, ao tempo.

Dizem que, até hoje, nas noites de lua nova, é possível ouvir uma voz suave sussurrando conselhos no ouvido de quem precisa.

Alguns padres ainda pregam contra ela. Dizem que era má. Que corrompia.

Mas as mulheres da vila, as avós, as filhas, as que vieram depois, sabem a verdade.

Seraphina nunca foi má.

Ela só era mulher demais.

E nasceu antes da sua hora.

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