

Começou com uma garoa. Fraca, bobinha. Ninguém se importou, porque sabiam que passaria.
Não passou.
Passaram os dias. A chuva não aumentou — tornara-se quase como um ruído constante. Eles já a conheciam e, por isso, não temiam. Quando os mares começaram a subir, quando o calor começou a ser forte demais, ainda assim ninguém se movia. Vinham furacões e brigas, eclipses e destruição em massa da vida selvagem. Mas e daí? Era época de São João. Ninguém ligava.
Começaram a se preocupar no mesmo ano em que notaram que já não restava muito. Já era o futuro que as trends do TikTok esconderam no passado. A água tremulou, os cervos correram em manada, pássaros bateram em retirada. A chuva castigava. A cidade desolada percebeu que ia morrer.
Passou na televisão. O país decretou um dia de luto — como se um feriado lavasse milhares de mortos.
Foi quando eu cheguei, contra a minha vontade.
Lembro de observar um navio, sentir a espuma entre os dedos. Antes deles, o mundo era menos barulhento. Eu sentia a vibração das baleias cantando sob o mar, o sal abraçando o coral, o tempo passando sem pressa.
Quando fui arrancada das águas, doeu. Mas não como dor de carne — doeu como quando se arranca uma palavra da boca antes de ser dita.
De repente, havia uma rede em volta de mim — apertada, estranha, feita de matéria humana.
Eu, que já tinha esquecido o tato da superfície, fui puxada por mãos que fediam a óleo e poder. E aquelas coisas, humanas, achavam que podiam mandar em mim. Não podiam. Mas criaturas de mente tão fraca, que destroem o próprio planeta e vivem dominadas por pedaços de papel, jamais entenderiam.
Eles se chamavam de piratas. Ridículo. Eram quatro. Três homens com a autoestima de 90 e uma mulher que me observava como quem lembra de algo antigo, mas não sabe dizer o quê.
Então eles me levaram, e eu ri. Não porque achava graça, mas porque eles não sabiam o que tinham feito. Porque não entenderam que, ao me capturar, trouxeram de volta o que a Terra já tinha esquecido.
Eu era mais do que espuma. Mais do que canto. Mais do que o homem.
No primeiro dia, me chamaram de sereia.
Me prenderam num tanque que chamavam de aquário. Um espaço de vidro e sal, para "peixes grandes demais".
Do convés, ouvi as vozes:
— Ela é linda! A pele dela... azul. Fascinante. Vou levar pra casa. — disse o primeiro.
— Não, se eu levar primeiro! — respondeu o outro.
Eles riram. E riam alto demais. Como se eu fosse coisa. Como se meu corpo fosse prêmio. E eles se achavam engraçados.
Fiquei. Observando.
A mulher não ria. Ela assistia. Me olhava sem fome. Sem nome.
Olhei pelas paredes de vidro. Senti o mar chamar. Senti a Terra estremecer. Eu podia ter afundado o navio no primeiro minuto. Podia ter chamado a maré para engolir tudo — feito uma tempestade, feito um milagre.
Mas escolhi esperar.
Escolhi olhar no olho.
Escolhi devorar devagar.
Porque era preciso que eles entendessem. Era preciso que sentissem o medo que espalharam pelo mundo durante séculos. Era preciso que a Terra fosse ouvida — pela minha boca.
Quando o primeiro tentou me tocar, não sobrou nada. Foi só instinto. A boca se abriu. O corpo sumiu. O gosto era amargo. Foi difícil esconder — humanos têm ossos barulhentos.
No segundo dia, eles me chamaram de arrogante. Como se minha recusa fosse mais violenta que a presença deles.
O outro era nervoso. Falava alto com a mulher. Tinha punhos pesados. Discutiam. Sempre discutiam.
Ele era daqueles que acham que grito é argumento; ela respondia com uma sinalização rápida.
— Você fez o que fez com aquelas mulheres e espera que as consequências nunca cheguem? — ela disse.
— Porra, você tem noção do que tá falando? O maior medo de um homem é ser acusado disso!
— E o maior medo de uma mulher?
Silêncio.
Naquela noite, comi devagar. Os olhos dele foram os últimos a desaparecer.
No terceiro dia, eles me chamaram de demônio. Depois de duas refeições completas, eu me sentia satisfeita. Eles já haviam entendido que eram eles que tinham ficado presos comigo — e não o contrário. Mas, ainda assim, foi bom.
Eles me chamavam de monstro. Mas monstros não se lembram de como era ser água. Eu me lembrava. De cada curva dos rios. Das algas dançando nas correntes. Dos filhotes de tartaruga tentando alcançar a vida.
Eu me lembrava do mundo antes deles.
Por isso, mastiguei com cuidado.
Engoli como se devolvesse tudo ao fundo do mar.
No último dia, ela ficou calada. Quando nos encaramos, ela sabia que ia morrer. Mas eu gostava da areia no cabelo dela, das sardas salgadas e de como me olhava — não para possuir, mas para admirar. Me olhava como quem vê uma onda gigante — com medo, mas com respeito.
Às vezes, eu esquecia que ela também era humana. Tinha sal nos olhos. Uma solidão antiga nos ombros. Não falava muito. Mas me ouvia, mesmo quando eu não dizia nada.
Isso me confundia.
E eu não gosto de me confundir.
A humanidade é horrível e desprezível.
Mas, quando o navio finalmente ancorou na terra, ela desceu num bote. Antes que partisse, toquei seu braço. A primeira vez que toquei sem devorar.
Pousei a mão em seu braço e sussurrei:
— É Mariana. Ou só Ana.
Ela sorriu. Me deu um tchauzinho com a mão. Pequeno, ridículo.
Me deixou sorrindo por uma semana inteira, todas as vezes que eu lembrava.
Da terra, ela sentiu que o sol iluminava a todos na Bahia. Era quente. Era dia. A chuva tinha parado. A pele dourada sentia cada um dos raios solares como um abraço aconchegante.
Ela irradiava felicidade. Não existia mais medo ou perseguição. E, se existisse, bastava acenar para o mar.
Estava tudo bem.
E era tudo ela.
Só Ana e o mar.
Mar e Ana.
Não a vilã, mas a consequência.
E dizem que, desde então, quando a chuva hesita e o mar se recolhe, é Mariana respirando fundo.
Esperando.
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