Máscaras e Mitos

Contam as mulheres mais antigas (aquelas que aprenderam a calar cedo) que existe um ser que anda pelas madrugadas, sutil como o vento, mas firme como quem já nasceu sabendo dizer "não".

Ela se chama Femina Libera, a Cortadora de Fios.

Existe um mundo antigo, como o primeiro passo de Adão e Eva sobre a Terra, onde os homens desenvolviam linhas invisíveis nas mãos. Com elas, escolhiam as mulheres com quem desejavam passar o resto da vida, controlando-as por meio das cordas invisíveis amarradas em seus pulsos e pescoços. Esses homens eram conhecidos como os Marionetistas, e as mulheres, como as Pequenas Marias.

Ninguém nascia sendo uma ou outra. Tornavam-se. Depois de certa idade, os meninos eram incentivados a buscar suas Pequenas Marias e, com isso, surgiam as cordas em suas mãos, dando-lhes todo o poder na palma da mão. As meninas, por sua vez, eram ensinadas por suas mães, também Pequenas Marias, a como se tornar uma. No casamento, as cordas das mãos do marido eram amarradas nos pulsos e no pescoço de uma vítima, uma Pequena Maria.

Quando finalmente se tornavam Pequenas Marias, algo mudava. Um efeito inebriante tomava conta delas, como um transe. Uns diziam que era o aperto das cordas nos pulsos e no pescoço. Outros, que era um leve sedativo, só o suficiente para evitar revoltas.

A vida, como se conhecia, foi construída a partir do que os Marionetistas decidiam — e do que as Pequenas Marias aceitavam. O que, na maioria das vezes, por conta das cordas, significava apenas balançar a cabeça em forçada concordância. E as Marias acreditavam que aquilo era o verdadeiro amor.

Mas há boatos. Histórias sussurradas por velhas corajosas e passadas de geração em geração. Contam que algumas Pequenas Marias, de repente, acordaram. Despertaram do transe. Romperam o véu que as prendia aos fios.

Essas mulheres — raras, mas reais — receberam a visita de um ser encantado, que lhes sussurrava a verdade, apontava o caminho e colocava em suas mãos uma faca invisível: a Faca da Consciência. Com ela, tentavam cortar, desesperadamente, os fios que as prendiam.

Nem todas conseguiam. Mas as poucas que lograram êxito viram o mundo além das cordas. Algumas até encontraram homens que, por convicção, recusaram-se a se tornar Marionetistas.

E quem as ajudava?

Femina Libera.

Ela nasceu da fé feminina, da intercessão das Pequenas Marias que, mesmo presas, suplicavam por alguma entre elas que pudesse ajudá-las.

Ninguém sabe dizer quando surgiu. Mas contam que foi numa noite de silêncio pesado, quando muitas Marias choravam juntas, sem saber umas das outras. Marias de lenço na cabeça, de marcas no corpo, de vozes abafadas. Algumas clamavam por Deus; outras apenas murmuravam. Mas todas pediam uma só coisa: alívio.

E então, como resposta, Femina Libera nasceu. Possui cicatrizes no pescoço que remetem à dor que aperta as Pequenas Marias; marcas de cortes nas mãos, em lembrança das muitas cordas que já ajudou a cortar; veste um tecido fluido, facilmente confundido com cortinas que balançam ao vento da noite em janelas entreabertas. Ela é o vento que sopra os cabelos e seca as lágrimas das que suplicam.

Alguns dizem que sua aparência quase não é percebida por aqueles que pouco se importam com a liberdade feminina, mas, para aquelas que desejam a libertação, sua presença é inconfundível.

Ela entra pelas janelas, misturada ao vento, e cochicha palavras de libertação nos ouvidos das que choram à noite.

Dizem que tem olhos de revolta, toque de insubmissão e voz de luta.

Onde passa, uma corda se afrouxa.

Onde sussurra, uma mulher acorda.

E toda vez que uma Pequena Maria corta seu fio, o mundo treme — e um Marionetista perde sua linha.

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